Papa Leão XIV celebra Jubileu dos Ciganos e Nômades: “Superem a desconfiança mútua, façam conhecer a beleza da vossa cultura”

O Vaticano viveu neste fim de semana um momento histórico de fé, alegria e reconhecimento. No sábado, 19 de outubro, o Papa Leão XIV acolheu milhares de peregrinos de comunidades ciganas e nômades — Roma, Sinti e Caminanti — na Aula Paulo VI, durante o Jubileu dos Ciganos e Nômades, evento promovido em colaboração com o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, a Fundação Migrantes da Conferência Episcopal Italiana, a Comunidade de Sant’Egidio, o Vicariato de Roma e representantes da Pastoral dos Ciganos e Sinti.

Cerca de 4 mil peregrinos de mais de 70 países participaram das celebrações, que uniram espiritualidade, cultura e emoção. Vestindo trajes típicos — saias bordadas, lenços coloridos e chapéus adornados —, músicos e dançarinos da Itália, França, Espanha, Romênia e Eslovênia encheram o Vaticano de som e cor. O Papa foi saudado com a expressão em língua romani “Ó Del si tumentsa!” (O Senhor esteja convosco!), simbolizando o respeito e a proximidade da Igreja com os povos itinerantes.

Em seu discurso, Leão XIV elogiou a profunda confiança em Deus demonstrada pelas comunidades ciganas e nômades, mesmo diante de séculos de exclusão e preconceito.

“Hoje todos nos sentimos renovados pelo presente que vocês trazem ao Papa: sua fé forte, sua esperança inabalável somente em Deus e sua confiança sólida, que não cede às dificuldades de uma vida muitas vezes vivida à margem da sociedade”, afirmou.

O Papa destacou que o coração da Igreja é solidário com os pobres e marginalizados, recordando que “por cerca de mil anos, os povos nômades caminharam em meio a sociedades que criaram modelos injustos e excludentes”. Ele denunciou as desigualdades, as crises financeiras e os desastres ambientais das chamadas sociedades “progressistas”, que ainda relegam os ciganos “às margens das cidades, dos direitos, da educação e da cultura”.

Durante a audiência jubilar, Leão XIV encorajou as comunidades a serem protagonistas de uma nova época, promovendo o diálogo, o respeito e a paz.

“Superem a desconfiança mútua, façam conhecer a beleza da vossa cultura, partilhem a fé, a oração e o pão fruto do trabalho honesto. A paz é possível, não é um sonho”, disse o Pontífice.

O Papa também recordou o 60º aniversário do primeiro encontro histórico entre Paulo VI e os povos Roma e Sinti, ocorrido em Pomezia, em 1965. Na ocasião, Paulo VI coroou Nossa Senhora como “Rainha dos Roma, Sinti e Caminanti” — uma imagem que desde então se tornou símbolo de devoção e esperança.

Inspirando-se em seus antecessores, Leão XIV citou Bento XVI, que convidava os fiéis a permanecerem “itinerantes no Espírito, pobres de coração e, por isso, bem-aventurados”, e Francisco, que exortava os povos nômades a seguirem “com dignidade no trabalho, na família e na oração”.

“Que a dignidade do trabalho e a dignidade da oração sejam a vossa força para derrubar os muros da desconfiança e do medo”, reforçou Leão XIV.

Em suas palavras aos agentes pastorais, o Papa pediu que continuem promovendo os objetivos definidos pelo V Congresso Mundial da Pastoral dos Ciganos, com foco na educação, formação profissional, atenção à família, inculturação da liturgia e da catequese — inclusive na dimensão linguística — e no diálogo ecumênico e inter-religioso. Ele manifestou o desejo de que todas as dioceses desenvolvam uma atenção pastoral específica e constante às comunidades Roma, Sinti e Caminanti, “para um verdadeiro crescimento humano integral”.

Em um momento comovente, o Papa respondeu a perguntas feitas por crianças presentes no Jubileu. Ao ser questionado sobre como ser amigo de Jesus, afirmou:

“Amar Jesus, ser amigo de Jesus, significa também amar e viver na Igreja. Jesus, através da Igreja, se apresenta a nós.”

Sobre o desejo das crianças por um mundo sem guerra, o Papa destacou que a paz começa em cada pessoa:

“Se quisermos mudar o mundo, devemos começar por nós mesmos, pelos nossos amigos, pelas nossas famílias. A paz nasce do diálogo e do respeito mútuo.”

As celebrações do Jubileu continuaram no domingo, 20 de outubro, com uma missa no Santuário do Divino Amor, em Roma, presidida pelo cardeal Fabio Baggio, secretário adjunto do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, acompanhada por músicos ciganos e sinti. Um momento especial de oração foi dedicado ao beato Ceferino Giménez Malla, primeiro mártir cigano da fé.

Ao encerrar o encontro, Leão XIV reafirmou o chamado à fraternidade universal:

“Todo ser humano nasce à imagem de Deus. Seja pobre ou rico, de qualquer cultura ou religião, somos todos irmãos e irmãs. Respeitemos essa fraternidade, e veremos que o mundo pode mudar.”

O Jubileu dos Ciganos e Nômades foi celebrado sob o lema “A esperança é itinerante”, símbolo da fé viva e do caminhar de um povo que, apesar das adversidades, continua a testemunhar ao mundo a força da confiança em Deus e o valor da dignidade humana.


Fontes: ACI Digital e Vatican News
Pastoral dos Nômades do Brasil

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