Nesta quarta-feira, 11 de março, o Circo de Tradição Familiar foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão foi tomada pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural durante reunião realizada no Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro.
Com esse reconhecimento, o circo passa a integrar o Livro de Registro das Formas de Expressão, reafirmando a importância dessa manifestação artística e cultural para a memória, identidade e formação do povo brasileiro.
Para a Pastoral dos Nômades do Brasil, que acompanha de perto a realidade das famílias circenses e atua na evangelização e na defesa de seus direitos, esse reconhecimento representa uma conquista histórica. O circo de tradição familiar não é apenas espetáculo: ele é casa, trabalho, cultura, fé e modo de vida para milhares de pessoas que vivem sob a lona e percorrem o país levando alegria e arte.

Uma tradição que atravessa gerações
Presente em todo o território nacional, o circo de tradição familiar é marcado pela itinerância e pela organização em torno da família. Em muitos casos, a arte circense atravessa gerações, chegando à oitava geração de artistas. Nesse universo, os saberes são transmitidos oralmente: técnicas, histórias, valores e modos de viver são passados de pais para filhos.
Essa tradição revela um patrimônio vivo, construído no cotidiano das famílias circenses, onde cada apresentação carrega não apenas talento artístico, mas também a memória coletiva de um povo que faz da estrada seu caminho.
Cultura que chega onde muitas vezes o Estado não chega
O circo itinerante também exerce um importante papel social. Em diversas regiões do país, especialmente em pequenas cidades e comunidades afastadas, o circo é muitas vezes a única experiência cultural acessível à população.
Levar cultura, alegria e encantamento a esses lugares sempre foi uma das grandes missões do circo. Por isso, o reconhecimento nacional reafirma a relevância dessa expressão cultural para a democratização do acesso à arte no Brasil.
Uma conquista construída por décadas
O processo de reconhecimento começou em 2005, a partir de uma iniciativa do Circo Zanchettini, no Paraná, liderado por Wanda Cabral Zanchettin. Durante décadas, famílias circenses, pesquisadores e instituições culturais se mobilizaram para garantir que essa tradição fosse oficialmente reconhecida como patrimônio do país.
Mais de cem entrevistas realizadas em todas as regiões brasileiras ajudaram a construir o inventário que fundamentou o processo, demonstrando a riqueza e diversidade do circo familiar brasileiro.

Reconhecimento também revela desafios
Apesar da conquista, o reconhecimento também evidencia os desafios enfrentados pelos circenses:
- dificuldades burocráticas para instalação dos circos nas cidades;
- falta de espaços adequados;
- preconceito contra o modo de vida itinerante;
- acesso limitado a direitos básicos.
Para a Pastoral dos Nômades do Brasil, esse momento deve servir não apenas como celebração, mas também como um chamado à responsabilidade social e às políticas públicas que garantam dignidade e cidadania às famílias circenses.

Um novo tempo para o circo brasileiro
Com o registro oficial, abre-se agora uma nova etapa voltada à salvaguarda do Circo de Tradição Familiar, envolvendo instituições culturais, políticas públicas e a própria comunidade circense.
A Pastoral dos Nômades do Brasil celebra essa conquista histórica e reafirma seu compromisso de continuar caminhando ao lado das famílias circenses — evangelizando, defendendo direitos e valorizando a cultura de um povo que leva alegria, arte e esperança por onde passa.
Viva o circo. Viva o povo circense.
Pastoral dos Nômades do Brasil

