Quarenta anos percorrendo estradas de terra com o povo circense: a história da Pastoral dos Nômades, das palavras dos Papas e de uma luta que acaba de ganhar seu maior reconhecimento.
O circo chegou ao Brasil trazido por imigrantes europeus no século XIX, mas o povo que vive sob a lona chegou muito antes a este país, nos corpos de acrobatas, palhaços, equilibristas e malabaristas que de geração em geração transmitiram não apenas uma arte, mas uma forma inteira de existir no mundo. Itinerantes por vocação, esses homens e mulheres sempre viveram à margem das políticas públicas, ignorados pelas prefeituras, invisíveis para o Estado e, por muito tempo, também para parte da Igreja. Foi preciso que alguém tivesse a coragem de cruzar a fronteira entre o templo e a lona.
O padre que virou nômade

O padre Renato Rosso era italiano e tinha uma pergunta que não o deixava em paz: como evangelizar quem não se sente acolhido nem ao entrar numa igreja? A resposta que encontrou foi radical: em vez de esperar que os nômades viessem até a Igreja, ele decidiu ir até eles, e ficar. Mudou-se para o Brasil, instalou-se em acampamentos ciganos, aprendeu os costumes, partilhou a mesa, ouviu as histórias. Tornou-se, como dizem até hoje, o “padre cigano”.
Não se aponta uma data exata para o início da pastoral católica junto ao povo nômade no Brasil. Pode-se dizer que ela começou na primeira vez em que algum padre ou leigo soube acolher de verdade um irmão da estrada. Mas foi com o padre Renato e com Dom Benedito Zorsi, então bispo de Caxias do Sul, que tudo ganhou forma institucional.
Marco Fundador: Em 1985, a Pastoral dos Nômades foi oficialmente criada no Brasil, com Dom Benedito Zorsi e o padre Renato Rosso. Ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a PN nasceu com um propósito claro: promover a dignidade humana e cristã dos ciganos, circenses e parquistas — o povo que vive e trabalha em movimento.
Desde então, a Pastoral dos Nômades assumiu três pilares fundamentais: promover a dignidade da pessoa nômade, renovar as comunidades e construir uma sociedade mais solidária. Palavras bonitas no papel, mas que na prática significam celebrar missa no picadeiro, ajudar uma família circense a acessar o SUS quando chega numa cidade nova, acompanhar crianças que nunca puderam frequentar uma escola por meses seguidos, e bater na porta das prefeituras para que o circo tenha onde se instalar.
O que os Papas disseram ao povo do circo
Um dos equívocos mais comuns é pensar que a Igreja olha para o circo como um fenômeno cultural comum, entretenimento popular, simplesmente. A história do pontificado moderno diz o contrário.
De João XXIII a Francisco: um olhar que nunca abandonou a lona

Segundo o padre Mirko Dalla Torre, da Pastoral do Espetáculo Viajante da Itália, “de João XXIII até o Papa Francisco, no pensamento dos Papas sempre estiveram os profissionais do espetáculo viajante.” É uma continuidade que atravessa décadas e pontifícias diferentes, uma preocupação constante com quem nunca para, com quem leva alegria sem ter endereço fixo.
O Papa Bento XVI, em junho de 2011, recebeu mais de dois mil ciganos que celebravam o 150º aniversário do nascimento do beato Zeferino Giménez Malla, um cigano espanhol que morreu mártir da fé, e que se tornou patrono da Pastoral dos Nômades e Ciganos. Naquela ocasião, Bento XVI dirigiu ao povo nômade palavras que soam como um abraço: “Vocês estão na Igreja! Vocês são uma parte muito amada do Povo de Deus peregrino e nos recordam que não temos aqui embaixo uma cidade permanente, mas buscamos aquela futura.”
“Vós tendes uma beleza ‘artesanal’, diferente daquela produzida pelas grandes potências do divertimento. Confesso-vos que prefiro a vossa, que tem o perfume do espanto, do encanto, mas que é fruto de horas e horas de trabalho árduo.” — Papa Francisco, Audiência com operadores do espetáculo itinerante, setembro de 2017
Em setembro de 2017, o Papa Francisco recebeu na Sala Clementina do Vaticano cerca de 120 membros da Associação Italiana de Operadores do Espetáculo Itinerante. No discurso, reconheceu as dificuldades que essas famílias enfrentam: a busca por espaços adequados para as caravanas, a permanência em lugares afastados dos centros, o convívio com comunidades que nem sempre valorizam o espetáculo itinerante. E chamou os circenses de “artesãos da alegria e da festa”, palavras que reverberaram ao redor do mundo e que se tornaram uma espécie de carta de alforria espiritual para esse povo que tanto necessitava ser reconhecido.
Francisco pediu ainda que entre as comunidades itinerantes e as paróquias locais houvesse sempre abertura, encontro e desejo de partilha. Mais do que palavras de conforto, o Pontífice deixou um convite às comunidades sedentárias: não fechem as portas. O povo que passa traz consigo uma graça que não deve ser desperdiçada.
Em julho de 2024, já debilitado, o Papa Francisco foi pessoalmente visitar uma comunidade de circenses instalada nos arredores de Roma. Abençoou uma estátua de Nossa Senhora Padroeira do Circo e do Show Itinerante, distribuiu balas e rosários às crianças e, quando um pequeno grupo fez uma apresentação improvisada, sorriu e disse: “Agradeço a todos vocês pelo que fazem para fazer as pessoas sorrirem.” Um gesto simples, mas que conta tudo sobre a teologia de Francisco: a alegria não é supérflua. Ela é missão.
Já em 2026, o Papa Leão XIV, logo no início de seu pontificado, pronunciou uma frase que ecoa com força especial nas estradas do Brasil: “A humanidade necessita de pontes para que sejamos um só povo sempre em paz.” Para a Pastoral dos Nômades, o circo é exatamente isso: uma ponte de alegria estendida entre cidades, gerações e realidades sociais.
A Igreja vai ao picadeiro

Se os Papas falam da lona a partir de Roma, é no Brasil que a Pastoral dos Nômades converte essas palavras em ação cotidiana. E o trabalho é imenso: são milhares de nômades espalhados pelo território nacional, ciganos, circenses e parquistas, que formam uma população em permanente movimento, muitas vezes invisível para as políticas públicas.
No mundo circense, a Pastoral aprendeu que não basta pregar o Evangelho. É preciso antes ajudar uma família a saber que tem direito ao SUS quando chega numa cidade nova, que seus filhos não podem ser negados na matrícula escolar por conta da itinerância, que o circo tem o direito de se instalar num terreno público. “Não adianta falar de Deus para eles sem eles ao menos saberem que são gente,” explicou Dom José Edson Santana de Oliveira, bispo referencial da Pastoral dos Nômades. Por isso a PN desenvolveu cartilhas sobre direitos constitucionais, documentos hoje carregados no bolso por muitos circenses e ciganos Brasil afora.
Vaticano e o documento orientador
Em 2005, o Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes lançou o documento “Orientações para uma Pastoral dos Ciganos”, um reconhecimento formal, pelo Vaticano, de que essa população exige uma abordagem específica, respeitosa de suas tradições, língua e cultura. O documento orientou dioceses em todo o mundo a iniciarem trabalhos de acolhida com os povos itinerantes.
A Pastoral dos Nômades nunca foi obra de uma pessoa só. Ao longo das décadas, centenas de agentes espalhados por todos os cantos do Brasil — circenses, ciganos, parquistas, leigos comprometidos, padres corajosos, foram tecendo, cada um com o fio que tinha, essa rede de acolhida e luta. Seria impossível citar todos os nomes. Mas alguns rostos ajudam a contar o que a Pastoral significa na prática.
Edson Oliveira da Conceição — o Palhaço Pessebe, proprietário do Circo Fênix, é um desses agentes que colocou o rosto e o coração na missão por décadas. Ele descreve com precisão o que a PN mudou na relação entre o circo e as cidades: “A Pastoral dos Nômades veio fortalecer a nossa luta diária. Ela abre portas. Depois dela, aprendemos a chegar na cidade e ter comunicação nas igrejas e apoio das prefeituras através do padre local.”
Do Rio de Janeiro, Ana Lamenha é outro nome que não pode faltar nessa história. Circense de alma e de vida, Ana construiu ao longo dos anos um trabalho de ação social profundo dentro do mundo do circo fluminense e nacional mobilizando comunidades, articulando redes de apoio e lembrando a todos que a dignidade do artista itinerante não pode depender apenas da boa vontade de quem passa na bilheteria. Seu trabalho é o tipo que acontece longe dos holofotes, mas que sustenta, por dentro, a estrutura inteira da missão.
Quando a pandemia de Covid-19 forçou o fechamento dos circos em 2020, foi dessa rede de agentes, da qual Pessebe e Ana são apenas dois exemplos, que a Pastoral se valeu para agir depressa. Famílias inteiras sem renda, sem bilheteria, sem comida. A PN, a época dirigida pela Cristina Garcia convocou agentes por todo o Brasil, e de norte a sul pessoas como essas mobilizaram empresários locais, igrejas e redes comunitárias para a doação de cestas básicas. A Igreja não esperou ser chamada, foi até a lona.
O dia em que o Estado finalmente olhou para o circo
Por décadas, o povo circense esteve acostumado à invisibilidade. Chegavam numa cidade, montavam a lona em terreno às vezes cedido às pressas, enfrentavam burocracias para licenças, preconceito dos vizinhos, dificuldades para matricular os filhos na escola local. E então desmontavam tudo e seguiam adiante, carregando consigo não apenas os equipamentos, mas também a ferida de quem nunca se sente bem-vindo.
No dia 11 de março de 2026, o picadeiro brasileiro viveu um momento histórico. O Conselho Consultivo do IPHAN aprovou, por unanimidade, o registro do Circo de Tradição Familiar como Patrimônio Cultural do Brasil. Mais de trinta anos de luta transformados numa só votação. Edlamar Zanchettin, filha de Wanda Cabral, que não viveu para ver o dia, estava presente. “A conquista representa o reconhecimento de uma vida inteira dedicada à arte,” ela disse.
“O circo é a mais antiga diversão do homem. É uma criança que nunca envelhece. É onde ainda se pode sonhar com os olhos abertos.”
— Palhaço Pessebe (Edson Oliveira da Conceição), agente da Pastoral dos Nômades

A Pastoral recebe a notícia: alegria e senso de missão
Para a Pastoral dos Nômades, o registro no IPHAN não é um ponto final, é um ponto de partida. Cícero Romão Batista Pereira, cigano calon de Sousa (Paraíba), bacharel em Administração, especialista em Direito Trabalhista e atual diretor executivo nacional da PN, foi categórico ao avaliar o momento: “Nós da PN recebemos esse reconhecimento com profunda alegria e senso de justiça histórica. O circo de tradição familiar sempre foi mais do que entretenimento: é um modo de vida, uma expressão cultural e uma identidade construída na itinerância, na resistência e na transmissão de saberes.”
Para Cícero, o que o Estado finalmente reconheceu é o que a Pastoral já sabia há décadas: quando o circo chega numa cidade, não chega apenas um espetáculo. Chegam famílias com história, com fé, com crianças que precisam de escola, com adultos que precisam de médico, com artistas que precisam de espaço. “Quando o Estado afirma que o circo é patrimônio cultural, ele também afirma que essas famílias têm dignidade, história e pertencimento.”
A PN tem buscado, passo a passo, traduzir o reconhecimento cultural em políticas concretas. Na educação, os filhos de circenses ainda enfrentam barreiras de acesso escolar pela itinerância, nenhuma criança pode ter seu futuro interrompido porque sua família vive na estrada. Na saúde, o SUS é universal no papel, mas a itinerância cria entraves na prática. O novo título de patrimônio cultural pode ser a alavanca para abrir essas portas de vez.
2026: o futuro da missão

Com o olhar voltado para a Assembleia Nacional que acontecerá em julho de 2026, em Jerônimo Monteiro (Espírito Santo), a Pastoral dos Nômades se prepara para consolidar avanços e traçar novos caminhos. A expectativa é escutar os agentes que estão na ponta: nos acampamentos, nos picadeiros, nas estradas, para construir metas concretas a partir da base.
O Palhaço Pessebe, que há anos coloca o rosto e o coração na missão, deixa um apelo que ressoa como Evangelho em prosa simples: “O circo é a mais antiga diversão do homem. É uma criança que nunca envelhece. É onde ainda se pode sonhar com os olhos abertos. Por isso, quando o circo chegar na sua cidade, abrace-o. Ali tem famílias precisando de apoio, atenção e cuidados.”
Quarenta anos depois da fundação, a Pastoral dos Nômades continua fazendo o mesmo gesto que o padre Renato fez diante daquela família cigana parada na porta da igreja: atravessar a fronteira, ir ao encontro, permanecer. Porque o Evangelho não espera que as pessoas sedentárias venham até ele. O Evangelho vai até a estrada.

